Cinema
(Festival do Rio 2024) A Contadora de Filmes
“A Contadora de Filmes” nos transporta para o deserto do Atacama, na cidade mineradora de Calama, no interior do Chile, onde acompanhamos a saga de María Margarita – interpretada na infância por Alondra Valenzuela e, na fase adulta, por Sara Becker – a caçula de quatro irmãos, filhos de pai minerador.

A vida da família de Margarita é marcada pela dureza do trabalho e pela expectativa dos domingos, quando vão ao cinema para viver as histórias contadas na telona. Quando o pai de Margarita sofre um grave acidente de trabalho que o incapacita, a família tem sua renda cortada à metade e se vê ainda mais empobrecida. Apesar disso, o pai não quer abrir mão dos domingos no cinema e decide comprar apenas um ingresso por semana, destinado a um dos filhos, que depois tem o compromisso de contar o filme para o restante da família. Logo se percebe que Margarita tem um talento especial para narrar as histórias de forma envolvente, e, assim, ela se torna a “contadora de filmes” da região, encantando os mais pobres com suas narrações. Ao longo da trama, vemos como ela e sua família se transformam com o passar do tempo, tendo como pano de fundo a história da cidade de Calama – especialmente sua indústria mineradora – e a própria história do Chile.
O elenco conta com a presença elegante de renomados atores, como Daniel Brühl (de “Adeus, Lênin!”), que interpreta Hauser, o alemão representante da empresa que administra a mineradora local e que mantém uma relação ambígua com a família de Margarita. Também se destaca Bérénice Bejo (de “O Artista”), que interpreta Maria Magnolia, a matriarca da família, uma artista frustrada. Ambos entregam boas atuações em seus respectivos papéis.
No entanto, quem realmente rouba a cena são as duas atrizes que interpretam Margarita. Alondra Valenzuela e Sara Becker conseguem transmitir tanto a leveza quanto o peso do drama que acompanha a personagem ao longo de sua trajetória.

“A Contadora de Filmes”, porém, apresenta um roteiro atropelado em seu segmento final. Há um momento específico (quando Margarita retorna de uma viagem) em que, se o filme tivesse terminado ali, o desfecho teria sido marcado por uma beleza única, tanto pela força da cena quanto pelo discurso proferido, além de criar um paralelo interessante com um diálogo entre mãe e filha ocorrido no início da história. No entanto, com a continuidade da trama, esse diálogo perde sua força, e o final acaba soando sem propósito, deixando uma sensação amarga de que o potencial do filme foi desperdiçado.
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