Críticas
Crítica Odisseia
Crítica Odisseia
Por Andréa Cursino
A grandiosidade de Homero ganha uma versão cinematografica modernizada pelas mãos de Christopher Nolan.
Esse é um dos filmes mais aguardados do ano e um dos mais polêmicos também. Para começar a Odisseia e Ilyada já foram para o cinema algumas vezes e cada filme tem uma abordagem diferente.
Para começar, como esse filme é uma adaptação, precisa seguir algumas regras. A abordagem que o diretor ou diretora precisam definir ao fazer uma adaptação é saber qual caminho seguir: Adaptar o mais próximo possível da obra original ou ser apenas inspirado em, existe difereças entre os dois caminhos. Quando a adaptação é o caminho, o roteiro e a direção precisam seguir o mais fiel possível, já que a cada mudança de linguagem são necessárias algumas mudanças para se enquandrar com coerência a nova forma de contar história. Se a opção é criar uma obra com inspiração em uma obra existente, é possível ter mais liberdade na criação de uma obra nova.
No filme “Odisseia” de 2026, Christopher Nolan dirigiu e roteirizou o filme querendo contar a história de Odisseu, também conhecido como Ulisses na versão Romana da mitologia. Ele quis se aproximar da história com o maior realismo possível, o que deixa a parte dos Deus mais apática. Alguns Deuses são mencionados, mas não aparecem no filme. O que enfraquece a parte da divindade da história.
Um problema do diretor em sua filmografia é que Nolan tem dificuldades em contar uma história de forma linear e sempre se prende em vai e volta, acontecimentos em tempo reais e memórias o que deixa muitas de suas obras incompreensível. Com esse não é diferente, só que nesse filme, a história fica um pouco mais compreensível. O contraste desse filme entre acertos e erros são constantes.
O uso de efeitos práticos foi um grande acerto. O produtor de efeitos visuais, Mike Chambers, colocou a equipe para trabalhar mais nos efeitos práticos o que rendeu ao filme um visual mais natural e fluido. Com isso, a reação de deslumbre com o resultado das imagens vale a pena e pode sim, render indicações nas premiações. O navio comandado por Odisseu realmente teve suas cenas no mar ao invés de ser feito em estúdio com chroma ki. As cenas ficaram maravilhosas. Os efeitos servem para ajudar a contar histórias com a sensação de realidade. É bom ver que Nolan está na nova onda de diretores que estão valorizando mais os cenários reais e efeitos práticos do que encher o filme de CGI.
A história fala sobre os 20 anos que Odisseu ficou fora de casa na Guerra de Tróia que durou 10 anos, e depois, mais 10 anos perdido enfrentando todo tipo de perigo. Aqui temos a jornada de Odisseu, o que houve com ele e seus soldados e durante a longa e trágica viagem. Os erros, arrependimentos e correções desses erros fazem com que Odisseu desenvolva a história. Em contraponto temos o Príncipe Telêmaco amadurecer ao mergulhar em uma jornada em busca do pai e proteção de sua mãe. O foco ficou mais humano e menos mitológico. Mesmo que os Deuses estavam na trama, sua participação foi mais modesta.
Ninguém tem dúvidas que os atores e atrizes escalados para dar vida aos personagens da trama são talentosos e muitos deles são até premiados. Para escalar um ator ou atriz para dar vida ao personagem alguns fatores precisam ser levados em conta. Não basta ter talento, o tipo físico do personagem e a caracterização conta muito. Vale lembrar que o personagem também escolhe seu interprete.
Agora, um filme que fala da Grécia sobre uma de suas obras mais importantes da cultura Grega não ter sequer um único ator ou atriz gregos é realmente uma bola fora.
Os atores estão bem, mas infelizmente, Nolan continua tendo dificuldade de criar personagens femininas e desperdiça o talento de atrizes fantásticas que sabemos do potencial de cada uma das escaladas desse filme.
Todas fazem o melhor possível com as ferramentas limitadas que receberam para trabalhar. Pena! Imagina se Nolan conseguisse construir a força e o potencial das personagens para aproveitar ao máximo o talento de suas atrizes e quem sabe até receber indicações para premiações.
Anne Hathaway interpreta Penélope, mulher de Odisseu e mãe de Telêmaco. Pena que ela ficou restrita a um comôdo atrás de uma porta tecendo um manto de dia e desmanchando à noite. Sorte do Nolan que Anna Hathaway é uma atriz que interpreta de dentro para fora e pôde dar vida, mesmo que limitada, a sua Penélope. Sua melhor cena é quando ela desafia os pretendentes.
Samantha Morton consegue um pouco mais com sua Circe, a feiticeira que se disfarça de uma camponesa frágil por ter um pouco mais de tempo de tela, apesar de ficar em cena apenas em uma parte do filme, e Penélope aparece em várias partes, mas sempre reduzida a mulher que espera.
Zendaya é a personificação de Atena que conversa e protege Odisseu, mas também se mostra muito frágil para ser a Deusa da sabedoria e estratégia em batalha. O mesmo acontece com a Calipso de Charlize Theron. Calipso é uma Ninfa da Ilha Ogígia que resgata Odisseu, após um naufrágio sofrido pela ira do Deus dos Mares Poseidon. Ela se apaixona por ele e o aprisiona por sete anos com a flor de Lotus, que o faz esquecer de quem era, o que passou e de sua mulher Penélope e seu filho Telêmaco. O feitiço da ninfa dura até que Atena convence Zeus a interferir e mandar Hermes para ordenar a libertação de Odisseu. No filme isso é retirado e Nolan economiza no roteiro e só vemos Calipso tentando reverter a memória de Odisseu e cortando o suprimento de Flor de Lotus. No filme, Atena o inspira a construir a jangada que vai levá-lo para casa.
Já Mia Goth interpreta a serva de Penélope, Melantho que é corrompida pelo perverso Antinous de Robert Pattinson. Sabemos que Mia Goth pode fazer muito mais do que foi designado para sua personagem.
A polêmica escalação de Lippita Nyongo como Helena de Tróia e de sua irmã gêmea Clytemnestra se confirma ser um problema.
A questão nada tem haver com racismo, e sim um erro de escalação não pelo talento e beleza de Lupitta, mas a atriz está longe da descrição da personagem que é filha de Zeus e Leda, ela é descrita com pele muito clara, cabelos Loiros e olhos azuis.
Que cineasta não gostaria de trabalhar com Lupitta Nyongo? É claro que Christopher Nolan não dispensaria a oportunidade, mas o diretor de elenco John Papsidera poderia ter oferecido a atriz um papel em que Lupitta se sobressaísse mais. Ela aparece em poucas cenas e quando aparece, é muito rápido e não reconhecemos as duas personagens que ela interpreta. As duas tem a mesma personalidade e a mesma fúria. Ficou difícil ver uma atriz com tanto potencial limitada e tendo sua pior interpretação.
Já os personagens masculinos se sobressaem mais e também parece que Nolan tem mais habilidade e conforto para trabalhar com eles.
Falando neles, Matt Damon está muito bem em um personagem que tem um desenvolvimento mais rico de elementos e motivações. Ele tem mudanças ao longo dos 20 anos da trama.
Outro destaque masculino é John Leguizamo. Ele está espetacular como Eumaeus, o personagem que é cego, mas é quem mais enxerga em toda trama. Ele emana bondade, lealdade e sabedoria de quem tem experiência de vida. Eumaneus é um personagem protetor e é a ele quem Odisseu confia a proteçõ de sua família. Eumaneus protege o reino, a rainha Penélope, o filho Telêmaco e o cão do Rei Odisseu. Ele lembra um pouco a essência de mestre Yoda de “Star Wars”. Não tire conclusões precipitadas ao ver um velho cego. Para proteger os que ama ele pode ser letal.
O personagem Menelau de Jon Bernthal está um pouco diferente de outras versões, mas está bem interpretado. Uma pena que na tela com Lupitta interpretando sua esposa Helena, o entrosamento não foi tão bom.
O Príncipe Telêmaco de Tom Holland mostrou um contraste entre força e fragilidade e mostra que também é protegido por Atena, a protetora de seu pai Odisseu e de sua mãe Penélope.
Pena que Benny Safdi não pode mostrar muito de seu Agamenon. Ele apareceu mais com uma armadura preta fosca, com crina preta no Elmo, com proteção nasal e na parte de trás do elmo um esqueleto de coluna dourada. Quando aparece, mal vemos o rosto dele. Apesar da imponência de sua armadura, não conseguimos ver a atuação de Safdi, realmente é uma pena.
O figurino real de Agamenon é uma armadura feita de bronze reluzente com destaques para faixas decorativas: 10 de estanho negro, doze de ouro e vinte de ferro polido. O elmo com uma longa crista dupla de cavalo no topo do elmo que que intimidava. No filme o figurino de Agamenon era uma armadura preta fosca que tornava o Rei Agamenon maior do que realmente era. O Elmo todo negro não era possível ver o rosto da pessoa embaixo da armadura, lembrando muito as armadura de Cavaleiro Negro, personagem clássico em duelos medievais. No topo era uma trança que acabava com um exoesqueleto dourado como se fosse parte de uma coluna de ossos dourado. Sim, o visual causa imponência, mas a ousadia em mudar o figurino do personagem pode ser bem recebido pelo visual impactante de quem não conhece o descrito pelo livro “Ilíada”. E pode causar um certo incomodo para os que conhecem.
Elliot Page interpreta o soldado Sinon, personagem importante na versão de Nolan. Esse personagem é de Eneida de Virgilio. A história de Sinon está correta, mas o roteiro coloca em “Odisseia” e essa foi uma parte que funcionou bem no filme. Sinon funciona como uma peça na estratégia de Odisseu para enganar os Troianos levando o presente de Grego para dentro das terras troianas repletos de soldados gregos em seu interior. Só que Sinon não fica só restrito a levar o cavalo para Tróia e sim, um motivador para que Odisseu faça justiça com a traição de Antinous (Robert Pattinson).
E falando nele, Robert Pattinson está bem como o cruel, traiçoeiro e covarde Antinous. Pattinson é um ator que consegue transmitir em sua fisionomia a essência do personagem, o que enriquece a trama, apesar do personagem estar um pouco raso na construção do roteiro.
Outro ator que está bem é Himesh Patel que interpreta o braço direito de Odisseu, Eurylochus.
Uma pena que Nolan não aproveitor o ator Will Yun Lee que interpreta Anchialus, um dos soldados de Odisseu. Na obra de Homero, Anchialus é um nobre feácio que participa dos jogos esportivos organizados em homenagem a Odisseu. Ele é o pai de Mentes, o que ajuda a movimentar o enredo no início da Odisseia. Nolan deixou o personagem como um figurante de luxo e não aproveitou o talento de Will Yun Lee, mas trouxe o rapper Travis Scott para iniciar o filme como o poeta moderno em contraponto com os poetas da antiguidade.
Voltando a falar sobre figurinos, a figurinista Ellen Mirojnick conhecida por seus trabalhos magníficos em outros trabalhos com Nolan e outras obras de filmes como Cinderela e séries como Bridgerton, fez sim um trabalho belíssimo com seus figurinos, apesar da mudança na armadura de Agamenon, ela fez um trabalho rico com figurinos dos mais elegantes como o de Penélope ou os variados figurinos de Odisseu que mostra os vários momentos do personagem ao longo dos 20 anos.
A maquiagem de Luisa Abel e os cabelos e perucas de Gloria Pasqua Casny são outro ponto positivo do filme.
O diretor de fotografia suiço Hoyte van Hoytema, que tem outros trabalhos com Nolan, fez um trabalho de fotografia impressionante com um filme todo filmado em tecnologia IMAX. Hoytema fugiu ao máximo de recursos de CGI para dar mais realismo e fluidez nas imagens tornando-as mais orgânicas.
A direção de arte de Ruth de Jong mostra uma pesquisa rica no período do bronze na época vivida por Homero. Os cenários, as praias, foram grandes acertos. As cores vivas do oceano da região mostram o cuidado não apenas para contar uma história, mas também as condições geográficas da história.
No fim, a edição que era minha grande preocupação, se mostrou mais eficaz do que o esperado, já que esse é um dos pontos fracos de Christopher Nolan. Na hora de montar um filme é preciso entender como será o corpo do filme com começo, meio e fim, mesmo que o filme seja não linear. É nesse ponto que pode elevar ou detonar o resultado final de filme. Desta vez, Odisseia consegue contar uma história mesmo com idas e vindas e histórias que acontencem em lugares diferentes do que é apresentado ao filme. Nolan continua seu trabalho com a editora Jennifer Lame que trabalhou com ele em Oppenheimer e Tenet. Ele tem bons trabalhos em sua filmografia e nem só de Nolan, Jennifer Lame sabe atuar. Pelo menos em “Odisseia” a dupla funcionou bem melhor do que nos filmes anteriores que a montagem deixava a desejar.
A trilha sonora de Ludwig Göransson inova ao abolir a orquestra tradicional, já que naquela época não existia. O estudo do músico sueco se prendeu a elementos usados na época como lira, aulos um instrumento de sopro, o uso de bronze e gongos criam sons mais próximos daquele período. O que tras uma riqueza de elementos sonoros para a história. Um trabalho muito interessante do premiado músico sueco.
No fim, “Odisseia” apesar de ter alguns problemas é o melhor filme de Christopher Nolan.
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