Críticas
Crítica: Quarteto Fantástico: Primeiros Passos
Marvel Studios lança o seu filme mais bonito, visualmente falando. Mas peca por não conseguir empolgar
O primeiro supergrupo de heróis da Marvel não dava muita sorte quando era adaptado para a telona. Depois de quatro filmes que não conseguiram capturar a essência da equipe de forma adequada (embora os dois longas de 2005 e de 2007 tinham alguns acertos e, principalmente, foram responsáveis por popularizar Chris Evans antes de se consagrar como o Capitão América), a Marvel Studios decidiu investir pesado nesses personagens e, após alguns contratempos, lança em 2025 “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”.
Com toda pompa e circunstância, o novo longa busca reintroduzir o grupo dentro do contexto do Universo Cinematográfico Marvel (embora se passe num mundo que, por enquanto, ainda não está totalmente conectado ao UCM), ao mesmo tempo que aposta num formato mais ousado e até atraente. O resultado é um filme com um visual belíssimo, provavelmente o mais belo lançado pela Marvel até o momento, com uma parte técnica impecável, de deixar o público de boca aberta durante boa parte do tempo. Só faltou fazer um longa mais empolgante, como a própria Marvel já fez antes e melhor.
Ambientada numa espécie de Terra paralela, que está num período inspirado na década de 1960, vive o Quarteto Fantástico, formado por Reed Richards/Sr Fantástico (Pedro Pascal), sua esposa Sue Storm/Mulher Invisível (Vanessa Kirby), Bem Grimm/O Coisa (Ebon Moss-Bachrach), o melhor amigo de Reed e Johnny Storm/Tocha Humana (Joseph Quinn), irmão de Sue.
Protetores do planeta, o grupo vive como celebridades enquanto combatem diversos inimigos. Até que, pouco tempo depois de Reed e Sue descobrirem que vão ser pais, a equipe tem que lidar com uma ameaça vinda do espaço sideral: a Surfista Prateada (Julia Garner), um ser de outra galáxia que anuncia que seu mestre, Galactus (Ralph Ineson) chegará em breve para devorar a Terra. Com pouco tempo para resolver esse grave problema, o Quarteto terá que encarar seu maior desafio para impedir a ação do Devorador de Mundos, mesmo que isso seja às custas de um grande sacrifício.
O grande destaque de “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” está na ótima ideia de ambientar o filme numa América retrofuturista, que pega vários elementos de 50 anos no passado e misturá-los com partes que parecem ter saído das melhores histórias de ficção científica. Assim, os figurinos, a direção de arte e o design de produção se mostram muito criativos e encantadores. O filme também acerta na ambientação, tornando-o bastante verossímil e fazendo e expectador acreditar nele.
Os efeitos visuais também estão muito bem realizados, em especial a captura de movimentos do Coisa, que torna o herói bem realista. A textura usada para lhe dar o aspecto de pedras está bem acertada e convincente. A caracterização de Galactus está impressionante e parece que o vilão saiu diretamente dos quadrinhos, especialmente a fase clássica desenhada pelo mestre Jack Kirby (que ganha uma merecida menção nos créditos finais do filme). A Surfista Prateada, que deixou alguns espectadores preocupados com o design mostrado em trailers, foi melhor ajustada e está adequada à personagem.
Mesmo com tantos acertos (além da sensacional trilha sonora de Michael Giacchino), “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, tropeça em alguns problemas que o impedem de ser um filme melhor do que poderia ser. Um deles está no fato de que tudo é muito previsível e sem maiores surpresas. Tanto que uma pessoa mais atenta pode facilmente prever o que vai acontecer em seguida em determinadas sequências do longa, o que pode até gerar tédio.
Além disso, a direção de Matt Shakman (que dirigiu a aclamada série “Wandavision”) se mostra um pouco sem criatividade nas cenas de ação. O cineasta se esforça, mas nunca consegue sair do lugar comum, entregando sequências que são puro feijão com arroz. Pelo menos ele compensa isso quando precisa fazer momentos mais dramáticos. Um bom exemplo disso está numa cena em que Sue precisa fazer um discurso e, felizmente, não fica bobo ou piegas e tem a tom certo para aquele momento.
Shakman também não acerta no humor, especialmente nos momentos mais descontraídos do Tocha Humana. Tanto que, o máximo que consegue, é tirar um risinho tímido da plateia nas sequências que deveriam ser engraçadas. Mas o diretor não é o único culpado disso. O roteiro escrito a oito (!!!) mãos também “colabora” para o resultado pífio nesta área do filme. Assim como a subtrama envolvendo Johnny e a Surfista Prateada, que é rasa e nunca empolga e não faz o público torcer para que os dois tenham um maior envolvimento. Fica tudo no formulaico e sem maior calor humano.
Pelo menos, os realizadores acertaram em cheio na hora de escalar seu elenco. O badaladíssimo Pedro Pascal constrói um Reed Richards bem analítico, mas que não perdeu sua humanidade por causa de sua inteligência. Ele convence em sua preocupação com as pessoas ao seu redor, especialmente com sua esposa, e até demonstra uma certa fragilidade diante dos problemas que tem que lidar, o que gera uma empatia e identificação com o espectador.
Ebon Moss-Bachrach também produz os mesmos efeitos que Pascal, mesmo debaixo de tantos efeitos visuais. É uma pena, no entanto, que ele não tem sua história tão aprofundada como deveria. O filme de 2005, por exemplo, trabalhava bem melhor a solidão e isolamento que o personagem sofria por ter uma aparência grotesca (aliás, uma ressalva para a ótima atuação de Michael Chiklis como o Coisa da época).
Joseph Quinn, infelizmente, é o mais prejudicado da equipe, não por uma atuação ruim. Mas porque o material que lhe deram não era tão bom quanto deveria e tirou muito da graça do Tocha Humana. Assim, seu Johnny Storm, embora seja mais do que um simples alívio cômico, também se mostra mais útil do que as versões anteriores do jovem esquentado. Só que o texto acabou tirando qualquer possibilidade de torná-lo mais cativante. Por isso, Quinn acaba se tornando o integrante mais apático da equipe, o que é uma pena.
Mas a melhor atuação do grupo (e do filme) é mesmo de Vanessa Kirby, desde já a melhor encarnação de Sue Storm de todas as que já surgiram no cinema. A atriz mostra um grande carisma, firmeza e vigor como a Mulher Invisível e é responsável por alguns dos melhores momentos do filme. Tanto que, toda vez que ela está em cena, é impossível não desviar os olhos na direção da atriz. Uma das sequências cruciais do longa é protagonizado por ela e, caso fosse feito por alguém menos talentoso, poderia não funcionar e estragar tudo o que viria a seguir. Mas Kirby (que não é parente de Jack Kirby) mostra que é o centro emocional do Quarteto e que cativa apenas com simples olhares e gestos, o que ajuda a fazer com que consigamos simpatizar por ela e com os outros protagonistas.
Do lado dos vilões, também foi acertada a escolha dos atores para representa-los. Ralph Ineson, com sua voz imponente (que não deve ter sido tão manipulada na pós-produção) consegue deixar seu Galactus realmente assustador. Não só pela sua grandiosidade, mas também pelo tom ameaçador para conseguir seus objetivos, sem se importar com nada ou com ninguém.
Já Julia Garner surpreende ao dar à Surfista Prateada um tom “badass” para a arauta do Devorador de Mundos no início, mostrando que não é uma boa ideia tentar enfrentá-la de igual para igual. A atriz também se sai bem ao mostrar as nuances da personagem e os conflitos internos que tem por se aliar a alguém tão perigoso. Uma boa surpresa foi a participação de Paul Walter Hauser como Harvey Elder/Homem-Toupeira, que dá um tom meio debochado que casa bem com o antagonista do Quarteto.
Com duas cenas pós-créditos, “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é, facilmente, o melhor filme sobre o primeiro supergrupo da Marvel para o cinema. Mas, mesmo assim, poderia ajudar melhor alguns detalhes e uma direção mais criativa para obter um resultado mais satisfatório. Do jeito que ficou, deve agradar boa parte dos fãs menos exigentes. Fica a torcida para que o próximo filme seja realmente fantástico.
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