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Segundo dia do LatAm Content Meeting traz eventos sobre true crime, IA no audiovisual e formatos
Pelo segundo dia consecutivo, cerca de 800 profissionais do setor do audiovisual nacional e internacional se reuniram em São Paulo no LatAm Content Meeting. Focado no segmento de não-ficção, a programação do dia destacou temas da atualidade como o sucesso dos conteúdos de true crime e realities shows nacionais. A importância dos arquivos na produção de documentários e o uso da inteligência artificial também estiveram na pauta.
A abertura da programação ficou à cargo de Alberto Marquez, representante da consultoria espanhola GECA (Gabinete de Estudios de la Comunicación Audiovisual), com a palestra “Formatos verticais, tendências e outros insights que você precisa saber”. Com dados e percepções sobre o público, os produtos, seus gêneros e os meios de transmissão usados para esse formato, ele enfatizou que atualmente os conteúdos não são mais produzidos para telas, mas para as mãos. Segundo ele, o formato já é realidade na Espanha, onde 60% dos espectadores entre 18 e 34 anos — e também na faixa de 45 a 54 anos — consomem ficção verticalmente.
“Em geral, todos os gêneros de produção têm espaço e potencial para verticalização. Drama, ficção, documentário, esportes, reality shows, gastronomia, entre outros gêneros, tudo pode ser vertical. Entretanto, alguns setores, como os esportes, ainda têm obstáculos para que seja amplamente adotado. Por ser um segmento muito tradicional as negociações com clubes e associações, tendem a ser um obstáculo e dificultar a adoção do formato”, destacou Alberto.
O painel “Quando os arquivos falam: Imagens em documentários True Crime” discutiu o papel fundamental de fotos, vídeos e documentos na reconstrução de acontecimentos históricos e criminais. Os diretores Eduardo Rajabally e Alejandro Hartmann, e a pesquisadora Bruna Rodrigues, enfatizaram que o material de arquivo não deve ser usado apenas como ilustração, mas como uma ferramenta capaz de revelar novas camadas de uma história. Um ponto central do debate foi a responsabilidade ética no manejo desse conteúdo: os painelistas ressaltaram que o acesso irrestrito a materiais sensíveis não justifica a exposição total, sendo indispensável manter o respeito à memória das vítimas e ao sofrimento das famílias envolvidas.
Na mesa “Quando A Realidade Encontra A Ficção” debateu-se o processo de transformar eventos verídicos em narrativas ficcionais, destacando projetos como a série “Tremembé” e o filme “Cem Dias Entre o Céu e o Mar”. Julia Priolli (Amazon MGM Studios) e a roteirista Vera Egito explicaram que a produção de Tremembé, que foca no cotidiano dos detentos após o crime, utilizou um rigor jornalístico em momentos-chave, mas mantendo o cuidado ético de preservar a imagem das vítimas e evitar a exploração do sofrimento.
Sobre a adaptação da travessia de Amyr Klink, Bruno Bluwol (Disney) e Justine Otondo (Ventre Studio) ilustraram o desafio de converter um relato técnico de sobrevivência em um drama envolvente. Segundo eles, o projeto buscou ir além das manobras de vela, encontrando a carga emocional da história através de entrevistas com a família do navegador, o que permitiu focar a trama na relação entre Amyr e seu pai. Em ambos os casos, o debate ressaltou que a transição do real para a tela exige um equilíbrio entre a fidelidade aos fatos, a segurança jurídica e a sensibilidade criativa para encontrar o lado humano das histórias.
Os desafios de como usar a Inteligência Artificial no audiovisual trouxe reflexões durante a mesa redonda “A Nova Fase da IA”. Mediado por Janaina Augustin, referência em inovação no audiovisual, o painel reuniu os especialistas Danilo Futema (YouTube), Marcelo Siqueira (Mistika) e Mauro Guedes (Shutterstock). Para Futema, a IA chegou para desafiar a linearidade e é importante que a indústria aprenda a lidar com isso, sem ter a necessidade de controlar todos os desdobramentos desta revolução que já está acontecendo. Uma das principais maneiras de colocar isto em prática é exercitando o processo de desaprender o impossível.
Já Marcelo Siqueira reforçou que uma sequência de “prompts” não substitui o talento. “Na animação, por exemplo, os personagens são coordenados por um artista. Ali você depende de algo que é a alma, e o jeito que aquele personagem vive depende de que tenha alguém com muito talento fazendo aquilo.” No entanto, ele ressalta que as ferramentas podem ser facilitadoras de processos, indo além de um gerador de imagens. Sendo assim, o setor pode avançar e ser mais competitivo.
No painel “Dos Podcasts Às Telas” trouxe para o Latam Content Meeting o debate girou sobre como o conteúdo baseado em podcasts está se tornando uma fonte cada vez mais importante de propriedade intelectual. Branca Viana, da Rádio Novelo destacou como somos ainda muito sudestinos. Que é importante que se tragam ideias de outras partes do país. “Não achem que o mercado está sobrecarregado. Ainda tem muito espaço para produção de qualidade, com desenho de som e boa pesquisa”, reforçou. Para o jornalista Chico Felitti, o podcast é de certa forma um conteúdo que já foi aprovado pelo público. “Mas não basta reproduzir o que foi ao ar, é preciso ampliar e trazer para mais pessoas, como fizemos com “Mulher da Casa Abandonada” e com o “Coitote”.
O painel Reality shows feitos no Brasil, mediado por Juliana Alganaraz, discutiu a distinção entre ideias e formatos, destacando que no segundo caso é uma propriedade intelectual consolidada e pronta para exportação. Daniela Busoli (Formata) e Dida Silva (Floresta) enfatizaram o esforço atual para colocar o Brasil no mapa como um exportador de formatos globais, e não apenas um consumidor. Um exemplo de sucesso mencionado por Márcio Yatsuda (Movioca) foi o reality “Drag Me as a Queen”, que alcançou o mercado internacional e boa audiência na América Latina ao provar sua força comercial mesmo em países conservadores.
Para Denise Chalfon (NBC Universal) e Patrícia Koslinski (Globo), o sucesso de um produto depende de sua capacidade de ser adaptável a diferentes culturas e de encontrar um licenciador sólido. Patrícia explicou que o desafio da Globo é replicar no setor de realities o histórico de sucesso que já possui com a ficção. Por fim, Elisa Chalfon (Netflix) ponderou que, embora o potencial internacional seja relevante, a prioridade inicial ao desenvolver projetos de realities como “Casamento às Cegas” é a conexão profunda com o público local e a universalidade de premissas básicas, como o amor, que acabam permitindo o sucesso em qualquer lugar do mundo.
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